QUEM TER MEDO DE PERDER UMA CHAMPIONS? QUANDO JÁ SE PERDEU TUDO.

Noite de Copa
Por Noite de Copa 3 Minutos de Leitura

Há treinadores que vivem de táticas. Outros vivem de títulos. E existem aqueles raros personagens do futebol que acabam transcendendo o próprio esporte. Luis Enrique pertence a essa última categoria.

Quando assumiu o comando do Paris Saint-Germain, muitos enxergavam apenas mais um técnico de currículo vencedor chegando a um clube obcecado pela Liga dos Campeões. Afinal, o espanhol já havia conquistado praticamente tudo. No comando do FC Barcelona, montou uma das equipes mais letais da história recente do futebol, levando o trio formado por Lionel Messi, Luis Suárez e Neymar ao histórico triplete de 2015: Campeonato Espanhol, Copa do Rei e Liga dos Campeões. Depois vieram mais títulos nacionais, Supercopa da UEFA, Mundial de Clubes e o reconhecimento como um dos melhores treinadores do planeta.

Mas o futebol costuma ser pequeno diante da vida.
Em 2019, Luis Enrique enfrentou o jogo que nenhum ser humano deseja disputar. Sua filha Xana, de apenas nove anos, morreu após lutar contra um câncer ósseo. O treinador abandonou temporariamente o comando da seleção espanhola para viver aquele momento devastador ao lado da família. Anos depois, ao falar sobre a perda, surpreendeu o mundo ao dizer que se considerava um homem “muito sortudo”, porque teve o privilégio de conviver com a filha durante nove anos extraordinários.

Talvez seja impossível compreender completamente o que acontece dentro de alguém depois de uma dor dessa dimensão. Mas é difícil não perceber como isso moldou a figura pública que Luis Enrique se tornou.
Antes visto como um treinador intenso, exigente e até explosivo, ele passou a demonstrar uma serenidade diferente. Não uma calma passiva, mas a tranquilidade de quem entende que existem problemas maiores do que uma derrota em uma semifinal ou uma manchete de jornal. A pressão continua existindo. Só perdeu parte do seu poder.
E talvez isso explique por que conseguiu enfrentar um dos ambientes mais complexos do futebol moderno: o vestiário das superestrelas do PSG.
Poucos treinadores tiveram de administrar tantos egos gigantescos ao mesmo tempo. Kylian Mbappé, Messi e Neymar não eram apenas jogadores; eram marcas globais, protagonistas acostumados a serem o centro de tudo. O desafio não era apenas tático. Era humano. Era convencer craques que passaram a vida inteira ouvindo que eram os melhores do mundo a se submeterem a uma ideia coletiva.

Luis Enrique encarou essa missão sem medo. Não construiu o time em torno dos nomes. Construiu em torno do jogo.
Alguns interpretaram isso como rigidez. Outros como coragem. Mas para quem já atravessou uma tragédia irreparável, a possibilidade de contrariar uma estrela do futebol parece um problema relativamente pequeno. Ele passou a exigir de todos a mesma entrega, a mesma disciplina e o mesmo comprometimento. O craque continuava sendo importante. Apenas deixava de ser maior do que a equipe.
O resultado apareceu gradualmente. O PSG abandonou parte da imagem de coleção de estrelas para se transformar em um time. Um conjunto que corre, pressiona, sofre e vence junto. Sob seu comando, o clube conquistou títulos nacionais, a tão sonhada Liga dos Campeões e consolidou uma identidade coletiva que durante anos pareceu impossível em Paris.

E há algo profundamente simbólico nisso.
Em 2015, quando o Barcelona conquistou a Europa, uma pequena menina chamada Xana correu pelo gramado de Berlim e fincou uma bandeira do clube no centro do campo. A imagem se tornou eterna. Anos depois, já no PSG, torcedores franceses fizeram homenagens à memória dela durante a conquista europeia do clube. Luis Enrique se emocionou. Não porque o futebol resolvesse a dor. Isso nunca acontecerá. Mas porque algumas pessoas continuam presentes mesmo depois da partida terminar.

No fim das contas, os títulos contam sua grandeza profissional. As duas Ligas dos Campeões, os campeonatos nacionais, as copas e os troféus internacionais contam uma história de sucesso.

Mas talvez o verdadeiro legado de Luis Enrique esteja em outra parte.

Na maneira como voltou a trabalhar depois da pior perda imaginável. Na forma como aprendeu a conviver com a ausência sem permitir que ela destruísse sua paixão pelo futebol. E na serenidade de quem olha para um estádio lotado, para a pressão de milhões de pessoas e para o peso de comandar estrelas mundiais, sabendo que a vida já lhe ensinou qual é o único resultado realmente impossível de reverter.

Crônica por jfsnwllc | NOITE DE COPA.
📷 Reprodução/PSG.

Nós somos as 5 dimensões do futebol.
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