Quando olhamos pro cenário geopolítico atual, vemos um mundo polarizado entre EUA e China, Capitalismo e Socialismo, Democracia Burguesa e Democracia Proletária. Esse evento não é algo novo. Parafraseando o velhinho barbudo: “a história ocorre duas vezes, uma vez como tragédia e outra como farsa”.
Se olharmos para o século passado, notamos que essa polarização também já ocorria, porém não com o embate EUA vs China, mas sim no embate entre os americanos e outro país asiático já não mais existente: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, mais conhecida como URSS.
Essa polarização e luta contra os americanos, porém, não ocorria dentro das 4 linhas, já que víamos um abismo de distância entre o coletivismo socialista e desejo alimentado desde a infância pelos esportes entre os eslavos para o individualismo capitalista alimentado pelo status quo vigente no país norte americano. Essa diferenciação entre os dois países é mais visível ainda no Xadrez, onde de 1937 a 1993, 10 dos 11 campeonatos mundiais do Xadrez foram conquistados por soviéticos, enquanto esse 1 restante foi de ninguém menos que Bobby Fischer. O Xadrez, porém, é um esporte individual, onde mesmo que um campeonato seja dominado por um país, isso não significa que seus representantes sejam melhores que o de outro país se este se provar superior (apesar de haver muita discussão entre Fischer, Karpov e Kasparov até os dias de hoje). Isso tudo significa que o individualismo alimentado pelos americanos não poderia dar certo num esporte coletivo como é o futebol, diferentemente do coletivismo soviético. Nesse texto, trouxemos então um raio-x do desempenho da URSS nas competições europeias ao longo da sua história.

Copa das Nações Europeias de 1960
Este foi o primeiro campeonato europeu de futebol acompanhado pela UEFA, no qual era realizado de 4 em 4 anos e teve apenas duas edições com este nome. É a atual Eurocopa, porém só foi ser chamado por esse nome a partir de 1968.
Desde então a URSS já se mostrava gigantesca no cenário futebolístico ganhando não só um campeonato europeu, mas o primeiro da história e, até então, o mais importante. Ela enfrentou a Checoslováquia nas semis, ganhando de 3 a 0 com dois gols de Ivanov e um de Ponedelnik, passando para a final onde iria enfrentar e ganhar da Iugoslavia de 2 a 1 com o gol de esmpate de Metreveli após a seleção sair em desvantagem; e de Ponedelnik na prorrogação faltando apenas 7 minutos pro fim do jogo. Ali, em Paris, em pleno Parc des Princes, a URSS mostrava a 17.966 mil pessoas como o Socialismo incentivava à melhora no esporte. A Rússia que anteriormente nunca tinha sido expoente em esporte algum, agora era a melhor seleção da europa no maior esporte do mundo, saindo da irrelevância esportiva para o temor dos adversários que os enfrentavam. Mostrou isso de maneira poética ao enfrentar um companheiro de ideologia, já que a Iugoslavia à época vivia num Estado Socialista de caráter, no entanto, diferente da URSS, já que seu principal expoente, Josip Broz Tito, tinha muitas divergências de ideia de Nikita Kruschev, atual Primeiro Ministro da URSS e Primeiro Secretário do PCUS.

Copa das Nações Europeias de 1964
Se a edição anterior significou uma consolidação dos ideais socialistas no esporte sobre os demais, essa significou o fracasso do país sobre um inimigo ideal antes já vencido.
Nas semifinais os Soviéticos não tomaram conhecimento da Dinamarca e aplicaram uma goleada de 3×0 nos escandinavos em pleno Camp Nou. A final foi contra os anfitriões, os espanhóis, e dessa vez não deu para o país dos Sovietes. Faltando 6 minutos para o fim de jogo, Marcelino desempata um jogo de 1×1 muito acirrado e dá a Espanha seu primeiro título europeu, Espanha essa que na época vivia sob o regime fascista de Franco, o mesmo que subiu ao poder sob um discurso anti-bolchevique e anti-comunista. A vitória da Espanha não foi apenas uma simples vitória no qual resultou num título, mas um troféu ideológico para os franquistas sob seus inimigos jurados. Alguns viram até como forma de vingança dentro do esporte contra os acontecimentos de 1945.

Eurocopa de 1968
Esta foi a pior campanha da URSS numa competição Europeia, tendo “perdido” já no primeiro jogo e sendo incapacitado de jogar a final. As aspas são porquê a seleção na verdade não perdeu o jogo em si, mas sim perdeu no sorteio ao final do jogo contra a Itália terminar empatado em 0x0. Após ser eliminado dessa maneira, a equipe enfrentou a Inglaterra na disputa de terceiro lugar e, com gols de Charlton e Hurst, perdeu de 2×0. Essa foi a primeira e única vez em que a seleção caiu na primeira fase e não ficou sequer entre os 3 melhores da competição.

Eurocopa de 1972
Por ironia do destino, o primeiro título da Alemanha veio a ser em cima da URSS, uma velha inimiga fora dos gramados.
Depois de passar pela Hungria de 1×0 com gol de Conkovo, a URSS enfrentou a fortíssima e talentosa Alemanha de Franz Beckenbauer, Gerd Muller e Paul Breitner – A base da seleção que seria campeã do mundo 2 anos depois – e foi atropelada com um singelo 3×0.
Se 1964 foi uma vingança ideológica dos fascistas espanhóis de Franco, aqui foi meramente uma vingança nacional, já que a Alemanha já não tinha mais caráter fascista nessa época, apesar dos pesares. Apesar da goleada, não foi demérito perder pra essa Alemanha, como já foi dito, a mesma foi campeã mundial 2 anos após.

Eurocopa de 1988
Após 3 edições sem participar, a URSS volta a dar as caras na Euro e faz isso chegando na final, porém… pra perder. Essa foi a última Eurocopa da URSS e também da Alemanha Ocidental, já que em 1991 a URSS se desmantela e perde seu caráter de união de países socialistas, onde o capitalismo volta ao cenário russo; e em 1989 cai o muro de Berlim, simbolizando a reunificação das Alemanhas.
Após passar invicto na fase de grupos com duas vitórias em cima da Holanda e Inglaterra e um empate com a Irlanda, a URSS passou para a Semifinal contra a Itália e venceu de 2×0. Na final pegou seu adversário de grupo, a Holanda de Rinus Michels (aquele que levou o Ajax ao título da UCL e o Barcelona o título da LaLiga), porém, diferente do resultado ocorrido na fase de grupos, os Holandeses se sobressaíram na final, deixando os soviéticos com um sentimento de frustração. Era a melhor campanha da seleção na competição, passando por 4 nomes muito difíceis até chegar na final e perder para uma seleção já superada anteriormente. Apesar da Holanda ter um elenco incrível e ter superado uma Alemanha incrivelmente forte (tão forte que seria campeã mundial 2 anos após), havia na URSS uma aura superior no qual muitos a consideram até hoje como a melhor seleção daquela competição. Bom, ao menos podemos ver Gullit, Van Basten, Rijkaard, Koeman e Rinus campeões com a seleção dos Países Baixos, coisa que nem a seleção de Cruyff, Neeskens e do próprio Rinus havia conseguido, tendo batido na trave em 74 com a Laranja Mecânica.

Como no futebol nem sempre sobressai a justiça (se é que era justo a URSS ter ganho), os Soviéticos deixam sua última marca no futebol europeu com uma campanha respeitosa porém fracassada no final. Apesar de tudo, nada apaga a história e simbolismo que essa seleção representou não só pros europeus, mas pra história geral do futebol. Um time que era um símbolo, você apoiando ou não essa causa, e isso é além do futebol, é a prova de que esporte e política se misturam.

Texto produzido por @dg_lyncoln.