A CRISE SEM FIM DA PONTE PRETA

Noite de Copa
Por Noite de Copa 5 Minutos de Leitura

O futebol brasileiro, a cada ano que passa, está cada vez mais inserido no processo de profissionalização que já domina o resto do mundo. No futebol atual, é indispensável ter salários em dia, gestão profissional, estrutura adequada e toda uma equipe qualificada por trás — fatores que constroem times vencedores.

Isso não significa que clubes desorganizados, mergulhados em problemas internos, não consigam levantar troféus — vide o Corinthians. Ainda assim, os principais exemplos de sucesso e dominância no Brasil passam justamente por esses pilares, como Flamengo e Botafogo.

Falamos aqui de um campeão nacional que, além de ver seu principal jogador ir embora (Élvis), enfrentou greve de atletas, transfer ban e um ambiente de insatisfação generalizada. O mesmo campeão da Série C que, ao que tudo indica, caminha para um retorno à própria Série C está hoje mergulhado em uma crise profunda.

Há poucos meses, a Ponte Preta levantou seu primeiro título nacional. Hoje, diversos jogadores já deixaram o elenco de 2026, e o clube precisará de um verdadeiro milagre para não disputar a Série B do Paulista em 2027.

O ano começou com transfer ban. Para aliviar seus cofres, a Ponte precisa arrecadar cerca de R$ 5 milhões. A pergunta é simples e assustadora: de onde virá esse dinheiro?

Esse valor seria destinado à quitação de salários atrasados de jogadores e funcionários, além do pagamento das pendências que originaram os dois transfer bans atualmente em vigor — um junto à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) e outro imposto pela Fifa.

Somadas, as punições chegam a aproximadamente R$ 2,2 milhões:

R$ 1,65 milhão da CNRD, referentes a parcelas em atraso de um acordo de pagamento de dívidas; cerca de 110 mil dólares (aproximadamente R$ 592 mil, na cotação atual) de uma dívida na Fifa relacionada ao mecanismo de solidariedade.

No final de 2025, jogadores que haviam retornado aos treinos visando ao Campeonato Paulista decidiram entrar em greve. Na época, o movimento foi apoiado pelo treinador Marcelo Fernandes. Havia atletas com até sete meses de salários atrasados.

Como um pai de família consegue sobreviver com esse nível de atraso, ainda mais sabendo que os vencimentos na Ponte Preta nunca foram altos?

As contas do clube chegaram a ser bloqueadas e, com muito esforço, acabaram desbloqueadas para o pagamento de apenas um mês de salário. Mesmo assim, aquele elenco ignorou todas as probabilidades, superou o caos institucional e conquistou o título nacional.

Nem o título foi suficiente para mudar a realidade: os jogadores seguiram sem receber.

Em entrevista ao ESPN.com.br, o técnico Marcelo Fernandes, que também tem pendências financeiras, apoiou a decisão dos jogadores, mesmo que prejudique a pré-temporada.

“É uma situação chata. A gente vinha fazendo uma pré-temporada muito boa, os jogadores se doando muito, estava muito legal. Mas, ao mesmo tempo, com essas condições, você não fica em um ambiente próprio para trabalhar. Os jogadores tomaram essa decisão (greve) e, por saber tudo o que passaram, a gente respeita”, disse o treinador.

“A Ponte tem que saber o que quer para o seu futuro, saber que tem que equacionar essas pendências com jogadores e membros da comissão técnica, que estão com muitos meses de salários atrasados, porque não tem como você ter um ambiente saudável. Todos os profissionais que trabalham ali são muito profissionais, mas chegou o momento em que não aguentaram mais”, continuou.

“A gente entende que teve uma eleição, a chapa que ganhou está lá e tem que entender o que está acontecendo. Tenho certeza de que está entendendo e tem que solucionar o mais rápido possível. Do jeito que foi levado até agora, até o final da Série C, não existe em lugar nenhum. Independentemente de conta bloqueada, ela tem que dar um jeito. A Ponte Preta tem que sobreviver, não pode depender dessas contas bloqueadas; ela tem que dar um jeito, arranjar outros meios para equacionar essas dívidas”, completou.

A CRISE SEM FIM DA PONTE PRETA

Diante do cenário de instabilidade, a Ponte Preta perdeu cinco jogadores ainda durante a pré-temporada. Do elenco campeão da Série C, o lateral-esquerdo Kevyn e os volantes Léo Oliveira e Luiz Felipe chegaram a um entendimento com a diretoria e rescindiram seus vínculos. Já o lateral Gabriel Inocêncio e o zagueiro Wallace, contratados visando à temporada de 2026, deixaram o clube poucos dias depois em razão dos problemas financeiros.

RELEMBRANDO 2025

O ano começou com esperança e terminou de forma ainda mais surpreendente. Rebaixada junto a seu maior rival, o Guarani, para a Série C do Campeonato Brasileiro, a Ponte Preta prometia mudanças para sair do fundo do poço. No entanto, já nos primeiros meses de 2025, a crise dava sinais claros de que acompanharia o clube ao longo de toda a temporada.

Nada disso, porém, foi suficiente para impedir aquele elenco de fazer história.

No Campeonato Paulista, mesmo com um regulamento confuso e questionável, a Ponte foi uma das equipes de melhor desempenho. Ainda assim, acabou eliminada logo na primeira fase. Para se ter ideia do absurdo, a Macaca somou 22 pontos e ficou fora da fase seguinte, enquanto clubes com 17 e até 16 pontos avançaram. A quarta melhor campanha do torneio não foi suficiente para seguir adiante.

Na Copa do Brasil veio o grande tropeço do ano: eliminação logo na estreia, diante do Concórdia. A queda precoce doeu, mas serviu como ponto de virada. O foco estava definido, o discurso era claro e direto: o objetivo era conquistar a Série C.

A CRISE SEM FIM DA PONTE PRETA
foto/créditos: MARCOS RIBOLLI – goal.com

Ao final da primeira fase, a Macaca encerrou em segundo lugar, com 36 pontos conquistados em 19 jogos, garantindo classificação para o quadrangular decisivo que define os acessos.

No quadrangular do acesso, a Ponte Preta dominou sua chave com 13 pontos, ficando à frente de adversários diretos e assegurando a promoção à Série B de 2026 ao lado de Londrina, Náutico e São Bernardo.

No duelo que garantiu vaga na decisão, a Ponte venceu o arquirrival Guarani por 2 a 0 no Estádio Moisés Lucarelli, resultado que selou a liderança do grupo e eliminou o Bugre da disputa pelo acesso.

A final do torneio foi disputada em dois jogos contra o Londrina. Após empate sem gols na partida de ida, disputada no Paraná, a Ponte Preta recebeu o Tubarão em Campinas no jogo de volta e venceu por 2 a 0.

Os gols da partida final foram marcados por Jonas Toró, logo no início da etapa final, e Élvis, em cobrança de pênalti, selando o resultado que consagrou o título. O desempenho geral da equipe foi destacado pela regularidade: ao longo da competição foram 16 vitórias, cinco empates e seis derrotas em 27 jogos, com 29 gols marcados e 19 sofridos.

A campanha da Macaca, sob forte pressão institucional e financeira, ficou marcada não apenas pela conquista do acesso, mas também pela comemoração de seu primeiro título nacional de dimensão reconhecida, celebrando um dos momentos mais importantes da história do clube.

Final — Ponte Preta 2×0 Londrina (25/10/2025)
Ponte Preta (4-3-3) – Escalação provável

Formação inicial:

Diogo Silva (Goleiro)
Pacheco (Lateral)
Wanderson (Zagueiro)
Saimon (Zagueiro)
Artur (Lateral)
Rodrigo Souza (Meio, substituído por Lucas Cândido)
Luiz Felipe (Volante, substituído por Léo Oliveira)
Élvis (Meia/Atacante, substituído por Miguel)
Diego Tavares (Meia, substituído por Jeh)
Bruno Lopes (Atacante, substituído por Serginho)
Jonas Toró (Atacante)

📝 Paulo Jorge – Jornalista

Nós somos as 5 dimensões do futebol.
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