FERJ FORÇA ESCALAÇÕES E EXPÕE FRAGILIDADE DO ESTADUAL

Noite de Copa
Por Noite de Copa 3 Minutos de Leitura

A decisão da FERJ de obrigar os clubes a utilizarem jogadores considerados titulares a partir da 3ª rodada do Campeonato Carioca volta a escancarar a dificuldade histórica da federação em valorizar o estadual sem recorrer à imposição. Embora a regra seja válida para todos os participantes, seus efeitos recaem de forma desproporcional sobre os quatro grandes, justamente os clubes que convivem com calendários mais longos, pré-temporadas enxutas e compromissos nacionais e internacionais em sequência.

A polêmica ganhou força no último domingo (09/02/2026), antes do clássico entre Vasco e Botafogo, quando ficou evidente que o regulamento interferiu diretamente no planejamento esportivo alvinegro. O Botafogo havia desenhado uma estratégia levando em conta desgaste físico, desfalques recentes e a sequência pesada de jogos — que inclui confrontos decisivos e viagem internacional —, mas precisou alterar tudo às vésperas da partida.

A situação foi escancarada pelo próprio técnico do Botafogo antes da bola rolar. Em entrevista ao Premiere, Anselmi revelou que o clube teve que abandonar o planejamento inicial por causa do regulamento: “Tínhamos um planejamento para esse jogo e tivemos que mudar no último momento por causa do regulamento. Se o regulamento fala, temos que fazer.” O treinador também destacou o impacto físico da decisão e a necessidade de escolher atletas com menor risco de lesão diante da maratona de jogos que o clube enfrentará.

O ponto central não foi apenas a escalação, mas a lista de relacionados. A exigência da FERJ de que ao menos sete jogadores considerados titulares estejam relacionados obrigou o clube a modificar uma relação já definida, desmontando a organização logística e física da comissão técnica. Não se trata de escolha esportiva, mas de cumprimento burocrático.

A regra está prevista no Artigo 43 do regulamento, que prevê punições severas, como a perda integral da cota mínima de transmissão ou multa equivalente, para clubes que, “sem justo motivo”, deixarem de utilizar sua equipe considerada principal. O problema é justamente a ausência de critérios objetivos: o regulamento não define com clareza o que caracteriza um “time principal”, abrindo margem para interpretações subjetivas e decisões políticas.

A consequência é uma interferência direta na gestão de elenco, algo que extrapola o papel da federação. Em um cenário de calendário congestionado, gramados ruins e risco constante de lesão, a imposição ignora o contexto esportivo real e transfere aos clubes a responsabilidade de sustentar, sozinhos, a competitividade do campeonato.

Embora a regra exista desde 2021, seus efeitos práticos são questionáveis. Dados da ESPN mostram que a média de público do Campeonato Carioca é de 6.681 torcedores, número baixo para um estadual que envolve alguns dos clubes de maior torcida do país. O maior público registrado até aqui foi um clássico entre Flamengo e Vasco, no Maracanã, com 50.504 presentes — um dado que reforça o óbvio: o interesse do público segue concentrado nos grandes jogos.

Fora disso, o esvaziamento é evidente. Partidas como Sampaio Corrêa x Nova Iguaçu tiveram apenas 507 torcedores, o menor público da competição. O histórico recente confirma a tendência: desde 2013, o Carioca só superou a média de 10 mil pagantes uma única vez, em 2023, quando atingiu 12.630. Após esse pico isolado, a média voltou a cair, mesmo com a obrigatoriedade do uso de titulares.

A crítica à postura da FERJ também ultrapassou os clubes e ganhou espaço no debate nacional. No programa Seleção SporTV, o apresentador André Rizek questionou a lógica da federação ao impor o uso de jogadores do elenco principal em um contexto que pouco alteraria o campeonato para o Botafogo. “Quando você precisa colocar no regulamento que é obrigatório jogar com time principal, é porque o campeonato não é lá essas coisas e muita gente quer usá-lo como laboratório. Desconheço isso em outros campeonatos”, afirmou.

A declaração sintetiza um incômodo recorrente: ao invés de atacar problemas estruturais — calendário, gramados, modelo comercial e conexão com o público —, a federação opta por uma solução normativa, que transfere aos clubes o ônus de sustentar o interesse pelo estadual.

Ao transformar o uso do time principal em obrigação, a FERJ acaba admitindo, ainda que indiretamente, a fragilidade do próprio produto. Quando é preciso forçar escalações para tentar gerar interesse, o problema não está no elenco que entra em campo, mas na estrutura do campeonato.

Em 2026, o Carioca passa a oferecer uma premiação fixa ao campeão, que pode chegar a R$ 27 milhões, algo que não ocorria desde 2020. Ainda assim, o modelo financeiro segue concentrado: o Flamengo recebe R$ 10 milhões apenas pela participação, enquanto Fluminense, Vasco e Botafogo ficam com R$ 6,6 milhões, e os demais clubes cerca de R$ 2 milhões. A desigualdade estrutural permanece, independentemente de quem seja relacionado ou escalado.

No fim, a decisão da FERJ soa como mais uma tentativa de resolver, por imposição, um problema que é estrutural. Forçar titulares não melhora gramado, não organiza calendário e não reconecta o público ao estadual. Apenas transfere aos clubes — especialmente aos grandes — o peso de sustentar um campeonato que segue distante do interesse popular.

✍🏼 @ribeiiroddede

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