Em pouco mais de um mês, o Corinthians reencontrou o caminho das taças e, com ele, uma sensação rara de alívio para a Fiel. Entre dezembro de 2025 e o início de 2026, o clube conquistou dois títulos nacionais importantes, em um intervalo curto que contrasta com um dos períodos mais turbulentos de sua história recente fora de campo.
A sequência começou em 21 de dezembro, com o título da Copa do Brasil, encerrando o ano com festa, vaga direta na Libertadores e reforço financeiro. Pouco mais de quarenta dias depois, já em fevereiro de 2026, o Corinthians voltou a levantar uma taça ao vencer a Supercopa Rei, somando dois títulos em pouco mais de um mês — um feito improvável para um clube que passou grande parte do último ano tentando conter incêndios institucionais.
O impacto financeiro imediato da Supercopa foi de cerca de R$ 11,55 milhões, valor que representa um alívio pontual diante de uma dívida acumulada estimada em R$ 2,8 bilhões. A crise é resultado de anos de desequilíbrio administrativo e foi aprofundada por uma gestão que terminou em impeachment, em 9 de agosto de 2025, deixando como herança um ambiente fragilizado e contas pressionadas.
Durante esse período, o clube conviveu com instabilidade interna, renúncias de diretores, investigações e uma relação cada vez mais tensa com seus próprios corredores de poder. Protestos culminando na invasão ao Parque São Jorge e com disputas políticas públicas tornando-se parte do cotidiano, criando um cenário em que a normalidade deixou de existir.
Ainda assim, o Corinthians seguiu em pé. Com limitações financeiras, planejamento curto e margem mínima para erro, o time continuou competindo — e venceu. As taças recentes não surgem como produto de estabilidade, mas como resultado de um clube acostumado a operar sob pressão constante, onde cada jogo carrega peso institucional.
Fora de campo, as prioridades seguem claras e pouco glamourosas. Parte do dinheiro arrecadado com os títulos tem destino imediato: redução de dívidas urgentes, especialmente as internacionais. A pendência com o Talleres, da Argentina, pela contratação de Rodrigo Garro, é tratada como estratégica para evitar novos bloqueios e manter o clube minimamente funcional no mercado.
O paradoxo permanece. O Corinthians vence enquanto tenta se reorganizar. Celebra enquanto paga contas. Projeta o futuro com o freio de mão puxado. Os títulos aliviam o ambiente esportivo, mas não apagam cicatrizes recentes nem resolvem problemas estruturais.
Para 2026, o clube entra em campo carregando mais do que expectativas esportivas. A presença na Libertadores eleva a exigência, enquanto as competições nacionais seguem sendo fundamentais não apenas para ambição, mas para sustentação. Cada campanha é, ao mesmo tempo, disputa por troféu e teste de resistência.
O Corinthians inicia o novo ano entre dois mundos: o da euforia recente, alimentada por taças e vitórias decisivas, e o da dura realidade financeira, que impede voos mais altos no curto prazo. Ainda assim, em um clube onde a identidade sempre esteve ligada à resistência, ganhar dois títulos em pouco mais de um mês não é apenas estatística — é um recado.
Para a Fiel, fica a sensação rara de que, mesmo endividado e pressionado, o Corinthians ainda sabe competir, sobreviver e, quando menos se espera, voltar a vencer.
✍🏼 @ribeiiroddede
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