Didier Drogba e a história do Messias Marfinense: Pare a Guerra

Em 2002 a Costa do Marfim vivia um começo de guerra civil. De um lado o presidente Laurent Gbabo e do outro, um grupo paramilitar rebelde denominado "Novas Forças da Costa do Marfim", liderados por Guillaume Soro, disputavam o controle do país da África Ocidental.

Jeferson Wollace
Por Jeferson Wollace 4 Minutos de Leitura
Didier Drogba e a história do Messias Marfinense: Pare a Guerra

Em 2002 a Costa do Marfim vivia um começo de guerra civil. De um lado o presidente Laurent Gbagbo e do outro, um grupo paramilitar rebelde denominado “Novas Forças da Costa do Marfim”, liderados por Guillaume Soro, disputavam o controle do país da África Ocidental. Durante aquele ano, em meados de setembro, as forças rebeldes conquistaram diversas cidades marfinenses, fazendo até com que atletas se mudassem de regiões do país, atrapalhando é claro, o futebol local – assim como tudo que envolve a sociedade.

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A BBC Sports chegou a revelar uma entrevista de um ex-atleta marfinense chamado Sebastien Gnahore, que relatou como era viver aquela época difícil de guerra civil na Costa do Marfim em 2002: “Foi horrível. Quando liguei para minha irmã pude ouvir o tiroteio do lado de fora da casa”, conta. “Todos se esconderam debaixo da cama por quatro dias e só saíram em busca de comida. Tudo o que me importava era se minha família ia ficar bem. Essa era a única preocupação que eu tinha todas as manhãs.

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Divididos entre norte e sul, a guerra tinha diminuído em 2004, mas havia sido retomada em 2005, justamente no período final das eliminatórias africanas. A última rodada reservava um duelo entre Sudão x Costa do Marfim e Camarões x Egito. Os camaroneses jogavam na capital Yaounde e só precisavam de uma vitória. Os marfinenses tinham que vencer fora de casa e torcer pela derrota ou empate de Camarões para se classificar à Copa.

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A seleção marfinense fez sua parte. Abriram um 3-0 simples, mas apesar de Sudão descontar no final, eles haviam vencido, agora só dependia do tropeço camaronês, que jogavam naquela mesma hora, mas ainda tinha bola rolando. Com o empate do Egito, de Mohamed Shawky aos 70 minutos (1×1), os camaroneses estavam perdendo sua vaga na última rodada, até que… Um pênalti nos acréscimos deixou a Costa do Marfim aflita. Naquela hora, Drogba e os atletas marfinenses ouviam o jogo pela rádio, enquanto Pierre Wome bateria aquela cobrança. Na trave! Wome tremeu e o empate em 1×1 colocou a Costa do Marfim na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, pela 1ª vez na história.

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Em êxtase, a seleção marfinense comemorou em campo! O país pela 1ª vez em anos esqueceu da guerra e foram às ruas festejar a ida para a Copa do Mundo. Aproveitando tal momento gigante, Didier Drogba no vestiário pediu a palavra e em uma gravação de menos de 1 minuto pediu paz ao seu país: “Homens e mulheres, do norte, sul, oeste e centro-oeste, provamos hoje que os marfinenses podem conviver juntos e jogarmos juntos. Prometemos que as celebrações uniriam nosso povo, pedimos de joelhos. Único país na África a ter tantas riquezas não deve cair em guerra. Por favor, guardem suas armas e façam as eleições”, pediu Drogba no histórico vídeo.

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As TVs marfinense repercutiram o vídeo incansavelmente. Os jogadores voltaram de avião para festejarem à ida para a Copa com seu povo. Os lados da guerra de fato ouviriam seu ídolo e um cessar-fogo foi firmado pouco tempo depois desse vídeo de Didier Drogba. Em sua primeira Copa, a Costa do Marfim caiu em um difícil grupo com Argentina, Holanda e Sérvia e Montenegro. Após vencerem os sérvios e montenegrinos, caíram ainda na fase de grupos, mas com exibições respeitáveis. Aquela geração de Drogba, Kalou, Eboué, Yaya Touré, Kolo Touré e cia, ainda jogariam as Copas de 2010 e 2014 em seguida.

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Para simbolizar a paz, em 2007 a seleção da Costa do Marfim fez um jogo contra Madagascar na região de Bouake, local dominado pelos rebeldes anos antes. Após dois anos do cessar-fogo, a seleção tinha liberdade para jogar em regiões impensáveis durante a guerra. O jogo foi ainda mais simbólico por Drogba ter sido nascido na região de onde o presidente Gbagbo, que estava em guerra com os rebeldes. Austin Merril, repórter da revista Vanity Fair, que cobria a seleção na época, disse que Drogba era como um Deus na época.

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Drogba, eleito futebolista africano do ano, fez um dos gols na goleada pro 4×0 naquele dia. Após o final de jogo, torcedores invadiram o campo felizes com a vitória, onde Drogba foi um dos mais procurados pela torcida. Seguranças até fizeram a segurança, provando que Bouake era sim um lugar onde a seleção seria bem-vinda e a guerra já não era mais prioridade.

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Contudo, em 2009 os conflitos voltariam a acontecer. Já distante, o pedido de Drogba e cia perdeu relevância, o futebol já tinha entrado na rotina dos cidadãos marfinenses e absoluta maioria dos jogadores já estavam com suas carreiras consolidadas na Europa. Novas guerras aconteceriam, onde mais de 3 mil pessoas morreriam naqueles tempos. O presidente Gbagbo chegaria a ser preso e julgado por crimes contra a humanidade, mas em 2019 foi absolvido das acusações. Hoje ele vive na Bélgica, onde esboça voltar para a Costa do Marfim em seu novo regime. Até hoje o país vive uma crise política, denominada até como etnorreligiosa pelo jornal O Globo.

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Desde essa conquista da Copa Africana de Nações é estimado que a Costa do Marfim volte ao protagonismo no futebol africano. Hoje o time conta com talentos como Amad Diallo (Man. Utd), Sebastian Haller (Borussia Dortmund), Serge Aurier (Galatasaray), Nicolás Pépé (Trabzonspor) etc. Será que o futebol novamente poderá trazer paz ao país?

Didier Drogba e a história do Messias Marfinense: Pare a Guerra
Formado em História pela Faculdade Anhenguera, sou apaixonado por futebol, São Paulino, torcedor do Real Madrid da Espanha e estudioso do futebol alemão, acompanhando a seleção desde 2006. Também me aventuro no mundo da literatura já tendo escrito dois livros, acredito que todos tenham um dom, o meu é escrever e criar histórias.
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