O docudrama sobre os Camisas Negras será lançado no dia 19 de novembro. A produção conta a história do Vasco da Gama e traz à luz a luta contra o racismo por meio do esporte.
Não é apenas futebol. O racismo no Brasil sempre esteve presente e se intensificou, por incrível que pareça, após a abolição da escravidão, em 1888. Não houve um plano efetivo para inserir os ex-escravizados na sociedade. Eles foram deixados à própria sorte: libertos, sim, mas sem oportunidades de ascensão social.
No início da República, tentou-se embranquecer a população por meio de um projeto audacioso de branqueamento, que também combatia as manifestações culturais, as danças e as religiões de origem africana. Os praticantes da capoeira eram perseguidos pela polícia, e a população negra enfrentava enormes dificuldades de acesso à educação, à saúde e à moradia. Muitos ocupavam praias, morros e locais distantes de seus empregos.
Nesse contexto, o subúrbio carioca se desenvolvia e, com ele, surgiam os times de futebol, esporte recém-chegado ao Brasil, mas que já atraía milhares de adeptos.

Os primeiros clubes suburbanos surgiram por volta de 1910, muitos deles ligados a fábricas, fazendas ou benfeitores dispostos a financiar o esporte. Ligas suburbanas foram criadas para permitir que os mais pobres praticassem futebol. Entretanto, esses jogadores dificilmente conseguiam chegar à elite do esporte, formada pelos clubes que disputavam a Primeira Divisão, cujas equipes principais eram chamadas de primeiros quadros.
O Campeonato Carioca era disputado desde 1906, com a presença de clubes ligados à elite carioca. Uma das exceções era o Bangu, seguido posteriormente pelo Andarahy, clubes ligados às fábricas de suas regiões, cujos jogadores eram, em grande parte, trabalhadores dessas empresas.
O Bangu foi pioneiro ao colocar um jogador negro em campo: Francisco Carregal, filho de pai português e mãe negra, que trabalhava como tecelão e já aparecia na equipe desde os primeiros anos do clube. Inclusive, o Bangu não disputou o campeonato de 1907 em razão da proibição relacionada à participação de Carregal. O clube só retornaria à competição em 1912, depois de conquistar o título da Segunda Divisão.
Outros clubes também passaram a escalar jogadores negros, mas o Vasco desafiaria de maneira marcante a elite racista da época.
VASCO DE RAMON PLATERO
O documentário, que será lançado em 19 de novembro, aborda a história do Vasco de 1923, equipe que conquistou seu primeiro Campeonato Carioca da Primeira Divisão e, devido à sua formação, enfrentou a resistência dos clubes da elite, culminando na exclusão do campeonato de 1924 e no episódio que ficou conhecido como Resposta Histórica.
Mas vamos voltar um pouco no tempo.
O Vasco disputou e venceu o campeonato da Segunda Divisão em 1922, conquistando uma vaga na Primeira Divisão. Em 1923, o treinador uruguaio Ramon Platero, conhecido por seu trabalho vencedor, enxergou naquele grupo de jogadores um time com potencial para conquistar o título da elite carioca.
Muitos dizem que a rivalidade entre Vasco e Flamengo começou no primeiro confronto daquele campeonato. Mas há um detalhe interessante: em 1922, Ramon Platero treinava o Vasco na Segunda Divisão e o Flamengo na Primeira Divisão.
Com a ascensão vascaína, o treinador precisou escolher qual equipe comandaria. Ambos os clubes desejavam mantê-lo, mas o Vasco deu carta branca ao uruguaio, que optou por permanecer no clube cruz-maltino.
Ramon Platero e a diretoria vascaína decidiram montar uma equipe com jogadores talentosos dos subúrbios cariocas. Os dirigentes foram às regiões mais pobres da cidade em busca de valores e encontraram diversos atletas que se tornariam protagonistas de uma das histórias mais importantes do futebol brasileiro.
Jaguaré, conhecido como chauffeur, era motorista. Bolão, cujo nome era Claudionor, trabalhava como estivador no cais do porto. Torterolli era chamado de “inimigo da literatura”, expressão utilizada para se referir à sua falta de escolaridade. Paschoal era um humilde morador do bairro da Saúde. Nicolino trabalhava como faxineiro. Já o trio formado por Arthur, Cecy e Negrito era composto por jogadores negros, suburbanos e sem escolarização formal.
Naquela época, os clubes mais ricos ofereciam pagamentos extraoficiais a alguns jogadores, muitas vezes como complemento de renda para rapazes de famílias com melhores condições financeiras. Os atletas do Vasco, porém, enfrentavam dificuldades para sobreviver. Por isso, além de uma espécie de salário, o clube também oferecia recompensas conhecidas como bichos, que podiam incluir galinhas, porcos e outros itens destinados a ajudar no sustento de suas famílias.
A diretoria também se preocupou com a educação dos jogadores. Custódio Moura, bibliotecário do clube, foi colocado à disposição dos atletas para ensiná-los a escrever seus próprios nomes e a desenvolver conhecimentos básicos de leitura e escrita.
Mas havia outro obstáculo: os jogadores precisavam ter empregos formais para disputar o Campeonato Carioca. A diretoria portuguesa recorreu aos seus associados, e os atletas foram supostamente contratados por bares e empresas ligados à comunidade portuguesa. Quando a fiscalização aparecia, a resposta, segundo relatos sobre o período, era sempre semelhante: o funcionário em questão estava realizando serviços externos.
Ramon Platero percebeu que seus jogadores possuíam habilidades técnicas semelhantes às dos adversários. Portanto, para conquistar vantagem, precisava investir na preparação física.
Com treinamentos rigorosos, inspirados em métodos militares, o treinador submetia os atletas a exercícios intensos e os obrigava a correr, em média, seis quilômetros por dia, algo incomum para a época.
O time saía de seu campo, na Rua Moraes e Silva, e seguia até a Praça Barão de Drummond, em Vila Isabel, percorrendo o trajeto de ida e volta.
O Vasco administrava o ritmo das partidas no primeiro tempo e intensificava sua atuação na etapa final. Essa estratégia ajudou a equipe a conquistar resultados expressivos e a ganhar popularidade.
O crescimento da torcida ficou evidente no segundo confronto contra o Flamengo, quando as notícias da época descreveram o Estádio das Laranjeiras como um local tomado por uma multidão.
A equipe-base campeã era formada por:
Nelson; Leitão e Cláudio (Mingote); Nicolino, Claudionor e Arthur; Paschoal, Torterolli, Arlindo, Cecy e Negrito.
A RESPOSTA HISTÓRICA
A Resposta Histórica é uma carta enviada em 7 de abril de 1924, há mais de um século, por José Augusto Prestes, então presidente do Club de Regatas Vasco da Gama, à Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA).
Nela, Prestes declarou que o clube não aceitaria excluir seus jogadores negros e de origem humilde para atender às exigências da associação, mesmo que isso significasse abrir mão de sua inscrição na entidade.
A exigência da AMEA estava relacionada à admissão e à participação do Vasco nos campeonatos organizados pela associação. A decisão vascaína tornou-se um marco na luta contra a discriminação racial no futebol brasileiro.
Mais do que uma carta, a Resposta Histórica representou uma posição institucional diante de um sistema que tentava limitar o acesso de determinados grupos sociais ao esporte.
A história dos Camisas Negras demonstra que o futebol nunca esteve separado das questões sociais e raciais do Brasil. A conquista vascaína de 1923 não foi apenas um título esportivo: tornou-se um símbolo de resistência, inclusão e enfrentamento ao racismo.
Por isso, falar dos Camisas Negras é falar de futebol, mas também de dignidade, oportunidade e justiça social. É recordar que, antes de se tornarem campeões, aqueles jogadores precisaram superar barreiras que iam muito além das quatro linhas.
